Friday Night Lights, uma série para a vida toda

(Contém leves spoilers da primeira temporada)

É difícil demonstrar para as pessoas o quanto um seriado é capaz de influenciar nossas vidas. A maioria das pessoas acham que série é, assim como qualquer programa de TV, apenas um passa-tempo sem fundamento. São poucas as pessoas que encaram as séries como produções de respeito, como as produções cinematográficas. É um verdadeiro martírio para um seriemaníaco não ter a oportunidade de expressar com qualquer pessoa certas emoções proporcionadas pela TV. Com um filme é mais fácil. Não importa o recinto, seja num bar, na faculdade, no refeitório do trabalho, basta puxar o assunto sobre a última risada ou lágrima que rolou no cinema para que a conversa seja produtiva e a emoção seja compreendida de forma satisfatória. Já com a TV não. Muitas vezes precisamos recorrer a redes sociais e blogs para conseguir expressar alguma agonia, momento de fúria ou de perplexidade, pois é muito difícil encontrar alguém que entenda essa linguagem. Se você tem a oportunidade de compartilhar essas emoções com alguém pessoalmente, parabéns pois você é um sortudo.

Não é preciso uma produção meticulosamente bem trabalhada para render altas discussões calorosas e divertidas. Uma piada tosca vista em iCarly, uma sacada genial do Bob Esponja ou algum barraco de Jersey Shore são motivos o suficiente para rolar aquele papo gostoso que todo viciado em séries gosta de manter. Mas convenhamos, são as séries de extremo garbo e elegância que nos deixam doentes para comentar um episódio recém assistido, tipo aquelas que nos fazem cair na cama e demorar para pegar no sono por nos deixar em estado de choque, olhando para o teto, perplexos com o que teríamos acabado de ver. Para alguns essa série pode ser In Treatment, para outros pode ser Grey’s Anatomy, mas para mim é Friday Night Lights. Infelizmente não assisti a essa obra prima desde seu início, em 2006. Aquela ansiedade pelo episódio seguinte só existiu para mim nas últimas duas temporadas e meia. Porém, a experiência proporcionada por ela acredito ter sido a mesma.

Devido à sua trama e elenco, FNL é classificada como um drama teen, mas quem já teve um contado considerável com a série, sabe que se trata do drama teen mais adulto e realista que a TV produziu nos últimos tempos. O roteiro envolvente, o texto bem escrito, a câmera sempre em mãos, o elenco competente… tudo favorece o realismo que a série tenta (e consegue) transmitir. Apesar de algumas tramas apresentarem uma pitada forte de ficção, no geral, os dramas e casos presentes na série é de uma veracidade impressionante, são situações pequenas distribuídas ao decorrer dos episódios que nos induz a acreditar que aquilo é um documentário com pessoas reais e não uma obra de ficção. Seja pelo bom dia do Eric para a Tami durante o café da manhã, seja pela forma como Landry ajuda Matt a criar coragem para chamar Julie para sair ou até mesmo pela forma como Matt prepara um sanduíche para a sua avó, que batalha para manter sua lucidez, FNL tem a capacidade de fazer os espectadores se importarem com esses personagens como se fossem seus amigos/familiares.

Lamentei junto com toda Dillon quando descobri que o maior QB da cidade não poderia mais andar. Fiquei rouco de tanto gritar com a torcida dos Panthers quando eles ganharam o campeonato estadual. Vibrei com cada touchdown conquistado pelos Panthers, mesmo não sendo um expert em futebol americano. Aliás, mesmo não sendo uma mãe, compreendi o desespero de Tami ao perceber que sua filha havia mentido dizendo que ia dormir na casa de uma amiga, sendo que, na verdade, tudo era um plano para ter sua primeira noite com o QB do time do marido… ou seja, tudo o que acontecia dentro da tela, acabara refletindo fora da tela. Se minha mãe demonstra certa dificuldade para fazer uma palavra cruzada, me recordo de todo o sofrimento contido que o Matt passou com sua avó e começo a entrar em um desespero silencioso. Se algum amigo vai para alguma competição de qualquer esporte que seja, me lembro de toda a ralação que foram os treinamentos dos Panthers para conquistar o título de State Champs. Se eu capoto o carro e, por um momento, acho que vou perder os movimentos da perna, sei que isso não seria o final do mundo, pois se Street conseguiu superar isso, eu também conseguiria. Se algum dia acontecer algo com minha família e ficar totalmente perdido e sem rumo, sei que não estaria sozinho, pois por mais difícil que seja de acreditar, o mundo está cheio de ótimas pessoas como Tami Taylor para estender a mão e ajudar o próximo, sem dinheiro em retorno.

Mesmo sem um sofá e um terapeuta para questionar/debater as ações do ser humano, FNL consegue nos deixar assustados e fascinados com os complexos caminhos que nossas vidas podem tomar. É mostrando o dia-a-dia da família Taylor de forma impecavelmente realista que a série nos mostra os caminhos que podemos seguir para moldar nosso futuro.

FNL é uma série que me comoveu e marcou minha vida de forma positivamente satisfatória. Portanto, leitor, não adie mais essa experiência louca que é a de assistir a Tami e Coach Taylor nos fazendo crer que, mesmo em meio a guerras e conflitos sangrentos gerados pela incompetência do ser humano em aceitar a diversidade, há sim gente boa no mundo. Preparados para encarar a vida de uma forma diferente?

Clear eyes, full hearts, can’t lose!

4 Responses to Friday Night Lights, uma série para a vida toda

  1. Pingback: Retrospectiva 2011: O ano em 40 e poucas séries « Ritual de Séries

  2. mptelles disse:

    Comecei a assistit FNL, na tv a cabo depois fiquei sem assisti-la por um tempo, quando vi a noticia que tinha acabado, resolvir baiaxar ae assistir todos os episodios, desde o inicio. Meu Deus como o pessoal que assistia semanalmente aguentava a angustia do proximo episósio ?
    eu assistia por noite 3/4 episódios seguidos e só parava por que tinha que trabalhar.
    Concordo com sua review, é uma série que mostra o dia-a-dia em detalhes, os atores principais, deram um show e para mim ficou gravada como o primeiro reestart de uma série que eu vi, vou falar foi perfeito, só me liguei na ultima temporada quando pensei ” vou ver a abertura da primeira temporada e depois vou ver a atual”, quem não conhece pode achar que são duas séries sobre o mesmo assunto, mas isso demonstra a inteligencia e a coragem dos produtores. Mais uma vez, uma das 3 melhores séries que vi na minha vida.

  3. @ok_again disse:

    chorando, zé.
    que texto mais lindo.
    e é desses que sempre devo reler (como a série).

  4. zé❤
    esse texto me fez lembrar por que eu nunca vou apagar fnl do meu hd

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