Preferência por uma terapia de muita qualidade

Quem me conhece um pouco sabe como eu tenho uma gigantesca dificuldade em definir quais são as minhas coisas preferidas, por exemplo é quase impossível eu dizer  qual é meu filme preferido ou qual a minha banda favorita, e claro, com as séries isso não poderia ser diferente. Quer dizer…pensando bem, com as séries acho que tenho uma das poucas exceções a essa regra. Se alguém me perguntasse no meio de um papo sobre séries “Então Aécio, se tu tivesse que escolher dentre todas as séries de todos os tempos UMA série como tua favorita, qual seria?”, com certeza eu responderia “In Treatment”, sem nem pensar duas vezes sobre todas as outras séries extremamente importantes na minha vida que eu estaria deixando de lado com essa resposta.

E tem uma fundamentação bem bacana pra isso…

A idéia de focar seus roteiros em um psicólogo (Dr. Paul Weston) e nas consultas com seus pacientes poderiam fazer com que In Treatment tivesse grandes chances de ser uma série extremamente chata, cansativa e parada, porque afinal de contas, em 90% da série temos Paul e algum dos seus pacientes sentados num consultório numa sessão de terapia. No entanto, quem assiste apenas dez minutinhos do piloto da série, que é uma consulta com a Laura, já consegue perceber que “chata” e “parada” são palavras que não dão certo com In Treatment.

In Treatment, pra mim, é uma série sobre a complexidade das pessoas e isto se reflete nela ser uma série sobre seus personagens. Vou tentar me explicar melhor. A série não fala da vida do Dr. Paul Weston e sim do Paul Weston como indivíduo, de como tudo ao seu redor o afeta como pessoa e na sua profissão. Da mesma forma acontece com cada um dos seus pacientes. Durante as duas temporadas exibidas a gente conheceu de verdade vários personagens, a medida que eles mesmos foram se conhecendo durante as “conversas” com o Paul.

Esse é provavelmente o maior acerto da série. É impossível não se envolver com o drama dos personagens e não perceber um pouco de si no desabafo, nas contradições, nas revoltas, nas decepções e nas alegrias daquelas pessoas. Quando falei em ‘se envolver’ algumas linhas acima, quis dizer envolvimento no sentido mais real da palavra, de se conectar mesmo com os personagens que a gente vê na série.

Ver In Treatment é se revoltar com a postura do Alex, é não aceitar algumas atitudes da Laura e depois entendê-la completamente, é ficar triste e querer dar um abraço na Sophie depois das suas sessões,  é querer se meter no relacionamento do Jake e da Amy, é odiar pessoas como a Mia e mais tarde perceber que todo mundo tem um pouco dela, é querer adotar o Oliver, é respeitar o Walter e, por fim, é chorar e querer proteger a April.


No meio de tudo isso temos Paul, que tenta manter a postura profissional e não se deixar envolver completamente por aquelas situações que os pacientes relatam para ele. Entretanto, tudo aquilo que acontece dentro do consultório afeta muito na vida do Paul, que também tem que conciliar sua profissão com todo os problemas que acontecem dentro da sua própria casa e isso só fica evidente quando ele desabafa tudo que sente nas sessões semanais com sua psicóloga Gina.  Essas sessões, em especial, já nos deram alguns dos momentos mais primorosos da série com a genialidade da interpretação do Gabriel Byrne e Dianne Wiest.

In Treatment é uma série extremamente ousada, que arrisca desde a forma como ela é apresentada na televisão, já que temos cinco episódios por semana, na primeira temporada cada dia da semana a HBO exibia um episódio-sessão com um dos personagens, às segundas eram as da Laura, às terças do Alex e assim por diante e na segunda temporada a tinhamos três episódios em um dia da semana e dois em outro.  Algo extremamente ousado e que foge dos moldes de como as séries são exibidas à audiência dos Estados Unidos, temos então que aplaudir a HBO por comprar essa idéia.

Ah outra coisa, nunca iria me perdoar se fizesse um post sobre In Treatment e não desse a merecida atenção para as atuações, então vamos a elas. Mesmo com tudo isso que já falei, a série nunca funcionaria sem um excelente elenco para interpretar esses personagens, então mais um ponto positivo para In Treatment porque o elenco dela é BRILHANTE. As várias indicações e premiações no EMMY e Golden Globe estão aí pra provar isso. Gabriel Byrne e Dianne Wiest são dois gênios do cinema/televisão, mas não só os dois que brilham, o elenco como um todo é genial. A Laura fez a Melissa George, que sempre achei bem fraquinha, se mostrar uma grande atriz. Blair Underwood e a Hope Davis conseguiram entregar excelente atuações com seus personagens extemamente complexos. John Mahoney e a INCRÍVEL Michelle Forbes são outros nomes de peso que In Treatmente já teve no seu elenco.

Mas o destaque da série, pelo menos pra mim, estava nas atuações de duas jovens atrizes que interpretaram as melhores personagens da série, Mia Wasikowska (A Alice do novo filme do Tim Burton) que deu vida a Sophie, a personagem mais complexa de toda a história da série e Alison Pill que interpretou April, uma jovem que se recusava a iniciar o tratamento contra um câncer. Nunca vou entender porque não indicaram as duas para as premiações da vida, porque elas REALMENTE mereciam. As duas ao lado do Paul Weston nos dão momentos incríveis de assistir e que me fizeram entender porque In Treatment  é a minha série preferida.

Putz, já disse tanta coisa e parece que ainda faltam milhões de coisas para serem comentadas! Além de tudo isso, In Treatment ainda traz várias discussões sérias a partir de temáticas que não são muitos tratados, através de uma forma crua e pertubadora, do mesmo modo como vemos esses problemas no nosso cotidiano. Mais um motivo pelo qual a série merece ser ovacionada e mais reconhecida.

A série é tão genial e apaixonante que vi os 43 episódios (sim, quarenta e três) da primeira temporada na velocidade da luz e poucas vezes uma série me mexeu tanto comigo quanto quando eu estava vendo In Treament. É algo que você precisa ver a série para entender do que estou falando. A segunda temporada e seus 35 episódios foram apreciada por mim, mais pausadamente, semana após semana e o efeito da série é o mesmo, apesar dos novos personagens (que era meu grande medo!) a série continua fazendo o que ela sabe fazer melhor, que é envolver quem está assistindo.

Por fim, quero dizer que In Treatment é HBO em toda a sua excelência, é um drama absurdamente humano e é um tapa na cara dos que põem em dúvida a qualidade que os tvshows podem ter. Big shame on you se você nunca deu uma chance pra série e espero que esse post motive alguém a assistí-la, porque ainda são poucos os que acompanham a série aqui no Brasil e eu tenho o maior prazer do mundo em comentar essa série com as pessoas. Aviso logo que a terceira temporada da série estréia lá pro fim do ano nos EUA e você tem tempo mais que suficiente pra correr atrás dos episódios e conhecer essa que é uma das melhores séries na tv atualmente. Tá esperando o que? Vai ver In Treatment!

Sobre Aécio Rocha
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5 Responses to Preferência por uma terapia de muita qualidade

  1. Picelli disse:

    Aecião, belíssimo post. Como já havia comentado contigo, conferi o piloto e achei de uma qualidade absurdamente altíssima. Definitivamente essa é uma serie que eu nunca me perdoarei se eu morrer sem conferir.
    Mais uma vez, ótimo post!

  2. kokol disse:

    pô, sou MAIOR FÃ de in treatment tb. difícil encontrar algm que curta, o CERUMANO num sabe o q tá perdendo, né? haha

    e sou team sophie pra sempre, os episódios dela são os melhores. (tirando o episódio do alex com o pai dele, né? pq esse é, indiscutivelmente, top 1)

    parabéns pelo post.

  3. Fabiano disse:

    Tambem achei brilhante a atuacao da atriz que fez a personagem de Sophie!! Me emocionei varias vezes…ela merecia uma indicacao tambem. Ah, estou esperando em breve pela terceira temporada!

  4. Manu disse:

    Estou apaixonada por In Treatment, tb virando madrugadas pra assistir aos episódios à velocidade da luz! Simplesmente envolvente, profundo, tocante… sem falar q está me pirando ainda mais, pois sempre fui daquelas pessoas intimistas, que pensam, sentem e analisam pra dentro, consigo mesmas, então imagina o impacto! Parabéns pelo post, fico SUPER feliz e honrada em ver que há pessoas que compartilham da minha impressão e entendimento acerca da série, pessoas que começam a dar valor pro que é bom, e não deixam apenas os “besteirois” americanos comandarem. =)

    • Aécio Rocha disse:

      Então Manu, é sempre feliz encontrar pessoas que, da mesma forma que eu, são fãs apaixonados por In Treatment. Não canso de comentar os episódios e conhecer pessoas que tambéms acompanham a séries, continue vendo In Treatmente na velocidade da luz que a série só melhora e fica cada vez mais profunda e intensa, como In Treatment sabe fazer muito bem.
      Aos fãs, com certeza, o sentimento de emoção já começa a aparecer a cada nova notícia que sai sobre a terceira temporada e a curiosidade sobre os novos pacientes e os rumos que a série vai tomar agora que não temos mais a Gina como terapeuta do Paul.

      Enfim, obrigado pelo carinho no comentário.

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